sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Parte do ensaio de Norman Mailer - Birds and Lions - sobre escritores e a escrita
Primeira Fronteira
Texto da Branca
Uma turma, dois professores. Fiquei na metade do professor que não ganhou o prêmio. A colaboração inicial foi ganhando tons de cinza, até o ponto em que a disputa tornou-se evidente.
O sumiço de alunos foi o primeiro revés do Sem Prêmio. Ele, que aparentemente tinha saído na frente – dicção perfeita, contra um clássico engolidor de sílabas – foi perdendo a confiança a cada nova cadeira vazia. E foram muitas, todas em sua metade.
Creio que foi quando percebeu que até os Escritores Convidados (todos com prêmio, diga-se de passagem) só se referiam ao Engolidor de Sílabas que o pobre despremiado desesperou-se. Parece-me que não resistiu ao clichê “só há espaço para um jovem talento promissor nesta sala”.
Na mesma aula, aproveitou o já institucionalizado “momento do cigarro apenas para professores” (os alunos que fiquem escrevendo textos como este em apenas 10 minutos, no auge da abstinência de nicotina) para seu ato final. De dentro da sala, tudo o que ouvimos foi o Sem Prêmio a gritar: “não, não faça isso, já prometi não revelar a ninguém que você roubou de mim o seu romance premiado, Três Vidas”. Mesmo desconfiada da verossimilhança do diálogo, corri para o terraço, assim como todos os alunos.
Chegamos no clímax, com o Sem Prêmio caindo parapeito abaixo, o olhar de terror na face, os óculos do Engolidor de Sílabas entre seus dedos. Aquele que supostamente empurrou tinha mesmo sinais de luta no semblante, um arranhão no rosto, o cabelo - que costuma ser uma peça uniforme – até despenteado.
Ficou ali, atônito, inerte, pela primeira vez sem sílabas para engolir. Até hoje não proferiu palavra e aguarda a sentença do julgamento em prisão preventiva.
Acredito em sua inocência – e admiro o engenho do Sem Prêmio. Aposto que, ao roubar-lhe a condecoração em seu último ato, ainda pensou que esta seria a definitiva: afinal, o gênero dos romances de cárcere já deu o que tinha para dar.
Road trip a Penafiel
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Três Arcos e o Arco Narrativo
Definição dos três actos:
- Exposição inicial (acto 1), introdução, apresentação das personagens, arredores e antecedentes da história, falha fundamental do protagonista. Situação de CRISE que leva ao CONFLITO (início do acto 2)
-Luke Skywalker conhece Obi-Wan Kenobi, que lhe diz que o seu pai foi morto por Darth Vader
-Dorothy e o cão, Toto, são apanhados num tornado e levados para a Terra de Oz
-O peixe gigante morde a linha do Velho que não pesca há 84 dias
-Acto 2: desenvolvimento e sucessivas complicações e obstáculos (com vários Plot Points, isto é, mini-crises que fazem avançar a história) que advém desse conflito, bem como a VIAGEM EMOCIONAL do(s) protagonista(s). A viagem emocional conduz ao clímax e ao final do acto 2, onde a história, uma vez mais, muda de direcção: irá o protagonista superar a sua falha e conseguir aquilo que quer? Dá-se o CLÍMAX da história.
Será que Luke Skywalker conseguirá destruir a Estrela da Morte e cumprir o seu destino?
Será que a Dorothy conseguirá roubar a vassoura à Bruxa Má que lhe permite ir para casa?
Será que o Velho conseguirá salvar o peixe de ser comido pelos tubarões e regressar à vila com o seu orgulho?
-Acto 3: O conflito inicial é resolvido, de maneira dramática, mostrando as mudanças no protagonista, que percorreu uma viagem emocional e um ARCO NARRATIVO. Unem-se as pontas soltas da história e temos evidência da mudança interior do protagonista.
-Luke Skywalker realiza-se como guerreiro Jedi e honra memória do seu pai
-Dorothy volta para casa nunca mais podendo esquecer a terra de Oz e os amigos que fez
-O Velho regressa, à beira do colapso, mas tendo recuperado a sua dignidade perante a vila de pescadores
Diálogos
DIÁLOGOS
a) Verosimilhança
b) Personagem
c) Sedução / Excesso
VEROSIMILHANÇA: O diálogo não pode ser artificial e sem vida, como um instrumento musical mal afinado. Não deve ser um substituto de uma descrição ou de uma narração. Diálogo revela carácter, não serve para passar informação.
“A chamada veio a meio da noite, três da manhã, e ia-nos pregando um susto de morte.
-Atende! Atende! – grita a minha mulher. – Santo Deus, quem é? Atende!
Acendo a luz, vou à casa de banho e o telefone continua a tocar.
-Atende! – berra a minha mulher do quarto. – Santo Deus, o que é que se passa, Jack? Não estou para aturar isto!”
Raymond Carver
“-O que viste dentro do poço?
- Nada…nada…a cor…queima…frio e húmido…mas queima…vivia no poço…vi-o…uma espécie de fumo…tal como as flores na Primavera passada…o poço brilhava à noite…tudo vivo…”
H.P.Lovecraft
PERSONAGEM: O diálogo tem de ser adequado à personagem, cada uma deve ter a sua voz própria. Criar mecanismos de identificação para cada personagem, através de tiques, repetições, frases chavão, e gostos. As personagens têm de falar verdade, não pode ser pergunta /resposta.
“Quando Donna chegou ao restaurante, havia apenas um homem sentado sozinho, numa mesa junto da janela.
-És o Checkers? – Donna estendeu a mão. – Sou a Donna.
Checkers levantou-se. Sorriu, apertou a mão de Donna, e sentaram-se.
-Achava que eras negra. – disse.
-Desculpa?
-Achava que eras negra. Donna. Pareceu-me um nome afro-americano. – Checkers encolheu os ombros. – Paciência.”
Kissing in Manhattan, David Schickler
SEDUÇÃO / EXCESSO: Um bom diálogo é uma conversa privada que queremos ouvir (prazer culposo). Um mau diálogo pauta-se pelo excesso de exposição e informação.
“-Bebemos mais um copo?
-Está bem.
O vento quente fez a cortina roçar na mesa.
-A cerveja está óptima e fresca – disse o homem.
-Sim – disse a rapariga.
-É uma operação muito simples, Jig – disse o homem. – Na realidade não chega a ser uma operação.
A rapariga olhou para o chão.
-Eu sabia que não te ias importar, Jig. Não vai ser nada. Passa num instante.
A rapariga não disse nada.”
Hart’s War, John Katzenbach
Pryce agarrou Tommy mais uma vez.
“Tommy”, murmurou Pryce, “não é uma coincidência! Nada é o que parece! Cava mais fundo! Salva-o, rapaz, salva-o! Neste momento, mais do que nunca, creio que Scott está inocente!...Agora é convosco, rapazes. E lembrem-se, conto convosco para superar a situação! Sobrevivam! Aconteça o que acontecer!”
Virou-se para os alemães. “Está bem, Hauptmann”, disse Tommy, súbita e extremamente calmo. “Agora estou pronto. Disponha de mim como quiser.”
Philip Roth, Goodbye Columbus
Narrador vai telefonar a Brenda, a rapariga que conheceu nessa manhã na piscina.
“A quem é que vais ligar?”, perguntou a minha tia Gladys.
“A uma rapariga que conheci hoje.”
“Foi a Doris que vos apresentou?”
“A Doris não me apresentaria ao gajo que limpa a piscina, tia Gladys”.
“Não sejas tão crítico. Uma prima é uma prima. Como é que a conheceste?”
“Não a conheci. Vi-a”.
“Quem é ela?”
“O apelido é Patimkin”.
“Não conheço nenhum Patimkin”, disse a tia Gladys, como se conhecesse alguém que pertencesse ao Clube de Campo de Green Lane. “Vais telefonar-lhe se nem a conheces?”
“Sim”, expliquei. “Vou-me apresentar.”
“Casanova”, disse ela, e continuou a preparar o jantar do meu tio.
Caixa de Ferramentas
Vocabulário
-Não procurar palavras difíceis; a primeira palavra é geralmente a melhor (porquê dizer “corpo discente” quando podemos dizer “estudantes”? Não ornamentar o vocabulário: é como vestir um traje de gala a um animal doméstico.
-Cuidado com a linguagem coloquial ou transcrita foneticamente. “Que fixe!” ou “trim! Trim!” devem ser usados em circunstâncias particulares, personagens especiais, ou NUNCA.
-Cuidado com a VOZ PASSIVA. Podemos pensar que confere autoridade ou majestade à obra, mas é apenas cobardia. Porquê escrever “o corpo foi transportado por João” quando se pode escrever “João transportou o corpo”? O corpo não deve ser o sujeito da frase.
Exemplo 2: “Ela será sempre recordada por mim” (voz passiva) “Irei sempre recordar-me dela” (voz ACTIVA)
-As descrições devem fazer sobressair o diferente e não o geral. Exemplo: descrever um coelho só é interessante se ele tiver, por exemplo, um focinho azul. De resto, todos sabemos com que se parece um coelho, é inútil estar a descrevê-lo. Fazer sobressair o particular e não cansar o leitor com pormenores inúteis.
-Cuidado com as comparações. Evitar o cliché e as metáforas demasiado distantes da imaginação possível do leitor. Manter as comparações simples e evitar as redundâncias.
-Excesso de advérbios de modo dificulta a leitura e torna a prosa lenta e morosa. “Fluentemente”, “habilmente”, “lentamente”, etc
-As indicações de fala nos diálogos devem ser, com honrosas excepções, “disse”. “João disse”, “disse Pedro”, “disseram eles”. Outras indicações são de evitar, excepto se absolutamente necessárias (ex: “gritou”, “sussurrou”). Se o diálogo for bom, não é preciso escrever “advertiu” ou “ralhou” ou “silvou” ou “desferiu”
-O parágrafo é o motor da narrativa, não a frase: começar o parágrafo com um tópico e desenvolver esse tópico com narração, descrição, diálogo etc. As frases seguintes à primeira servem para a desenvolver e explicar. Não lançar tópicos inacabados em cada parágrafo, confunde o leitor. O objectivo do parágrafo é seduzir e acolher o leitor.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Hábitos e métodos de trabalho dos escritores
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Sobre a desconstrução do herói shakespeariano
Another reason the show may feel different than a lot of television: our model is not quite so Shakespearean as other high-end HBO fare. The Sopranos and Deadwood — two shows that I do admire—offer a good deal of Macbeth or Richard III or Hamlet in their focus on the angst and machinations of the central characters (Tony Soprano, Al Swearengen). Much of our modern theater seems rooted in the Shakespearean discovery of the modern mind. We’re stealing instead from an earlier, less - traveled construct—the Greeks—lifting our thematic stance wholesale from Aeschylus, Sophocles, Euripides to create doomed and fated protagonists who confront a rigged game and their own mortality. The modern mind—particularly those of us in the West—finds such fatalism ancient and discomfiting, I think. We are a pretty self-actualized, self-worshipping crowd of postmoderns and the idea that for all of our wherewithal and discretionary income and leisure, we’re still fated by indifferent gods, feels to us antiquated and superstitious. We don’t accept our gods on such terms anymore; by and large, with the exception of the fundamentalists among us, we don’t even grant Yahweh himself that kind of unbridled, interventionist authority.
But instead of the old gods, The Wire is a Greek tragedy in which the postmodern institutions are the Olympian forces. It’s the police department, or the drug economy, or the political structures, or the school administration, or the macroeconomic forces that are throwing the lightning bolts and hitting people in the ass for no decent reason. In much of television, and in a good deal of our stage drama, individuals are often portrayed as rising above institutions to achieve catharsis. In this drama, the institutions always prove larger, and those characters with hubris enough to challenge the postmodern construct of American empire are invariably mocked, marginalized, or crushed. Greek tragedy for the new millennium, so to speak. Because so much of television is about providing catharsis and redemption and the triumph of character, a drama in which postmodern institutions trump individuality and morality and justice seems different in some ways, I think.
O uso (magistral) da segunda pessoa
Beijinhos no rosto, Rubem Fonseca
Foi, respondi acendendo um cigarro.
Gostaria de marcar a cirurgia para logo depois desses exames que estou pedindo. Já lhe falei da relação entre o câncer da bexiga e o fumo?
Não me lembro.
Três em cada cinco casos de câncer na bexiga são ligados ao fumo. Esse vínculo entre o fumo e o câncer da bexiga é especialmente forte entre os homens.
Prometo que vou deixar de fumar.
Este ano, no mundo, ocorrerão cerca de trezentos mil novos casos de câncer de bexiga.
É mesmo?
É o quarto tipo de câncer mais comum e a sétima causa de morte por câncer.
Tive vontade de mandar o Roberto parar de me chatear, mas ele, além de meu médico, era meu amigo.
O câncer de bexiga, ele continuou, pode ocorrer em qualquer idade, mas usualmente atinge pessoas com mais de cinqüenta anos. Você faz cinqüenta anos no mês que vem. É um mês mais velho do que eu.
Estou atrasado para um compromisso, tenho que ir, Roberto.
Não se esqueça de fazer os exames.
Saí correndo. Eu não tinha encontro algum. Queria fumar outro cigarro em paz. E também precisava encontrar alguém que me arranjasse um revólver. Lembrei-me do meu irmão.
Telefonei para ele.
Você ainda tem aquela arma? Tenho. Por quê?
Quer vender?
Não.
Você não tem medo de que um dos teus filhos ache o revólver e dê um tiro na cabeça do outro? Uma coisa assim aconteceu outro dia. Deu no jornal.
Meu revólver está trancado numa gaveta.
O desse infeliz, segundo dizia o jornal, também.
Eu não li nada sobre isso.
Você sempre diz que só lê a manchete do jornal. Isso não dá manchete, acontece todo dia.
E como é que foi?
O menino estava brincando de mocinho e bandido com o irmão e a desgraça aconteceu. Qualquer dia vou ler no jornal que um sobrinho meu matou o outro numa brincadeira.
Deixa de ser agourento.
Vou passar aí hoje à noite.
Chegando na casa do meu irmão ele me disse, olha aqui esta gaveta, você acha que dois pirralhos podem arrombar essa fechadura?
Podem. Como? Quer ver eu arrombar essa merda?
Você é um adulto.
Onde é que está a Helena?
Está no quarto.
Chama ela aqui.
Contei para a mulher dele a tal notícia do jornal, que eu inventara.
Vivo pedindo ao Carlos para se livrar dessa porcaria, mas ele não me ouve, disse Helena.
Eu vim aqui para comprar o revólver, mas esse idiota não quer vender.
O que você vai fazer com o revólver?, perguntou Carlos.
Nada. Possuí-lo, apenas. Eu sempre quis ter um revólver.
Helena e o meu irmão discutiram algum tempo. Ela venceu o debate ao dizer que um dos meninos podia pegar o chaveiro quando meu irmão estivesse dormindo, ou quando ele esquecesse o chaveiro num lugar onde os moleques pudessem achar, ou em outra ocasião qualquer. Afinal, Carlos abriu a gaveta e tirou o revólver.
E você, para piorar as coisas, mantém esse troço carregado, eu disse, depois de examinar a arma.
Maluco irresponsável, disse Helena, furiosa, você sempre me disse que o revólver não tinha balas. Olha, deixa o seu irmão levar essa porcaria com ele, agora. Do contrário eu saio de casa e levo as crianças.
Peguei o revólver e fui para o meu apartamento. Telefonei para a minha namorada. Senti vontade de ir ao banheiro mas sabia que ia ver sinais de sangue na urina, o que sempre me dava calafrios. Isso podia atrapalhar o meu encontro. Urinei de olhos fechados e também de olhos fechados acionei a válvula de descarga várias vezes.
Enquanto esperava minha namorada, fiquei pensando no futuro, fumando e tomando uísque. Eu não ia ficar a vida inteira enchendo com xixi uma bolsa colada no corpo, que depois tinha que ser esvaziada, sei lá de que maneira. Como eu poderia ir à praia? Como poderia fazer amor com uma mulher? Imaginei o horror que ela sentiria ao ver aquela coisa.
Minha namorada chegou e fomos para a cama.
Você está preocupado com alguma coisa, ela disse, depois de algum tempo.
Não estou me sentindo bem.
Não se preocupe, querido, podemos ficar apenas conversando, adoro conversar com você.
Essa é uma das piores frases que um homem pode ouvir quando está nu com uma mulher nua na cama.
Levantamos e nos vestimos sem olhar um para o outro. Fomos para a sala. Conversamos um pouco. Minha namorada olhou para o relógio, disse tenho que ir, querido, me deu uns beijinhos no rosto, foi embora e eu dei um tiro no peito.
Mas esta história não termina aqui..Eu devia ter atirado na cabeça, mas foi no peito e não morri. Durante a convalescença, Roberto me visitou várias vezes para dizer que tínhamos pouco tempo, mas ainda podíamos fazer a cirurgia da bexiga, com êxito.
Isso foi feito. Agora eu esvazio com facilidade a bolsa de urina. Ela fica bem escondida sob a roupa, ninguém percebe que está ali, sobre o meu abdome. O câncer parece que foi extirpado. Não tenho mais namorada e estou viciado em palavras cruzadas. Deixei de ir à praia. Fui uma vez, para jogar o revólver no mar.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Anatomia de uma cena
Descrições do espaço: absolutamente necessárias.
Descrições das personagens: assertivas e demonstrativas: mais vale a pena dizer que anda sempre com um pente no bolso das calças do que dizer que é vaidoso.
Situação de conflito. O que cada personagem quer?
Diálogo verosímil e que faça avançar a narrativa.
Mostra, não expliques.
Aquilo que o narrador sabe mas as personagens não sabem - no caso do texto de Marçal Aquino, o narrador sabe que o cliente é um pastor de Igreja, mas a prostituta não sabe. Isso adensa o conflito.
Supresa - tirar o tapete ao leitor. Exemplo: no texto de Thom Jones, o narrador, que odeia a cunhada, acaba a dormir com ela.
Considerações pós cena - apenas se absolutamente necessárias, como acontece no texto de Thom Jones, no qual, após dormir com a cunhada, admite que todo o comportamento humano é abominável.
Texto Miguel Soares
- Então pá? Estamos atrasados. Logo no primeiro dia pôrra. Assim não vamos longe.
- 15 minutos. Até dá charme vais ver.
Na verdade deixaram-nos à espera mais de uma hora ainda. Houve tempo para tudo entretanto. Até para conhecer a matulona da Deolinda que era secretária do homem. Mal eu sabia as coisas loucas que ela ainda me haveria de fazer. Estávamos no segundo café da máquina chiante que devia estar ali desde a revolução industrial quando me bateram nas costas.
- Você deve ser o filho do Albino certo? Vê-se logo pela sua cara. Venham entrem para o meu gabinete.
Nunca tinha visto nada assim. E muito menos o esperaria ali no meio daquela fábrica perdida na neblina de Sacavém. O gabinete era uma exibição da mais avançada tecnologia que eu já tinha visto. Senti-me noutro país. Que raio nos quereria este tipo? O meu pai sempre me disse o melhor dele e isso descansava-me um pouco. Mas na verdade só o tinha visto no funeral e pouco sabia da sua vida.
- Sabem alguma coisa da dinastia Ming?
Eu e o Nicolau olhámos um para o outro e mantivémos o silêncio.
- Não tem problema. Têm tempo de sobra no avião para estudar a documentação. Se concordarem partem para a China hoje mesmo.
Texto, Branca
Teve.
E soube apreciar cada minuto: viu tantos filmes quantos sempre quis, devorou página por página dos livros que um dia se prometera ler. Reuniu novamente a família, deu para cada um uma lembrança inesquecível – e mais do que isso, nos fez rir, e muito. Sempre foi de um humor escrachado, sem amarras, destes que faz rir até carpideira em horário de trabalho.
A proximidade da morte libertou ainda mais seu riso. Arquitetava cenas e combinava conosco a participação: quando o vizinho passasse de visita, nós deveríamos convidar-lhe a entrar - e já dar as notícias da saúde de papai. “Ele está bem, a quimioterapia tem surtido efeitos. O maior problema tem sido a queda dos cabelos, sabe como papai é vaidoso. Colocou uma peruca, não lhe caiu bem, mas nós estamos apoiando.” Esta era a deixa para que papai adentrasse a sala de peruca rastafári, as tranças escorrendo até a cintura. O vizinho ainda demorou-se um bom tempo elogiando seu “estilo tão jovial” até, enfim, perceber.
Não sei por que tanta gente repete feito maquina que a única certeza é a morte. Patavinas, era sim a última coisa que eu esperava, mesmo que todos os diagnósticos fizessem questão de afirmar, “quatro meses de vida”.
Nestes cento e trinta e dois dias aprendi um tanto que julgava já saber. Coragem, generosidade, escolhas, vontade: palavras que vivemos atirando aos outros, muitas vezes antes de sabê-las. Até que, em uma tarde de maio, quando segurava as mãos de meu pai e vi a vida sair de seu corpo, entendi a diferença que faz viver.
Texto, Miguel Magalhães
Recordo de quando era criança e ficava sempre impessionado com o tamanho do tronco que, em conjunto, conseguíamos fazer rolar pelo corredor até à cozinha grande. “Empurra daí”, “mais para a esquerda”, “não deixes bater na porta”... e lá ia ele, sempre rolando até ao seu sítio, como se só lhe tivésemos de indicar o caminho.
O riso inconfundível dos tios, duas gerações acima da minha imprime ancestralidade à tradição, e as sonoras gargalhadas do cardume de crianças que orbita sempre em redor do acontecimento, lembra a tranquilidade que a vida pode e deve ter.
Todos sabemos que à noite seremos muitos, sempre a rondar os 50. Que se comerá polvo e bacalhau e que, no final, haverá presentes: embrulhos, brinquedos e boa disposição. Também todos sabemos que aquele velho e enorme tronco, que demorou dezenas de anos a ficar deste tamanho, irá arder dentro da lareira aquecendo-nos noite fora, daqui até ao dia dos reis.
Texto, Sílvia
Sempre foi o meu lugar preferido. Aquele local de refúgio dos finais de tarde perdidos na Catalunha. Do alto de Tibidabo Ela adormece aos meus pés com a cabeça repousada numa linha ténue em tons de laranja onde o mar e o céu misturavam-se. E lá do alto consegue-se ter a melhor das vistas com o perfeito dos silêncios.
Um dia li que as grandes cidades são compostas de linhas desenroladas ao acaso e sem qualquer sentido. Barcelona não é assim. Ela é composta sim por linhas desenroladas, muitas, mas simetricamente, que formam quarteirões perfeitos de culturas e cheiros diferentes, onde entre o passado e o presente, entre Gaudi e Jean Nouvel, de alguma forma costura-se um estilo que só ali sobrevive.
Muitos dirão que a âncora de Barcelona é Montijuic, Icaria ou as ruelas estreitas do Born que parecem nunca experimentar a solidão, mas para mim será sempre aquele parque de atracções, e note-se que o uso da palavra atracções e não de diversões não me parece casual. Perdida e logo reencontrada após seis kms de curvas serpenteadas, no topo da Serra, onde a roda gigante fica em pausa no momento em que o pôr-do-sol reflecte-se na Torre de Agbar. O som dos sinos da igreja a entoar em pano de fundo indicam a hora de encerramento do local. Esta é a fotografia a nascer na minha cabeça em primeiro lugar, quando revivo aqueles anos passados. É de cima que se consegue a melhor das perspectivas.
Texto, Cláudia
Ora, daquela vez, incitado pelas profecias do fim do ano do Porco e o anúncio do ano do Dragão, Chao-Ming inscreveu-se no violento banquete e, para espanto de uns e gáudio de outros, derrotou o Animal. A sua participação acabou horas depois do Animal ter caído redondo no chão, a espumar da boca, deitando arroz pelos olhos. Chao manteve a sua postura inalterável, costas direitas, olhos fechados, paus hirtos nos dedos apertados. Ganhou por uns meros 12 bagos de arroz. Os mesmo que os seus anos de idade. Já o fogo estalava no céu e os dragões coloridos esvoaçavam no ar. Poucos foram os que o testemunharam, mas a fama de Chao voou, e nessa mesma noite teria início a famosa Dinastia Ming. Feita de contornos transcendentais, valentia e coragem. Feita essencialmente de perseverança, qualidade que Chao ajudou a que fosse uma das mais louvadas na China até aos dias de hoje.
Textos, André
A dinastia Ming é, como todos sabemos, uma dinastia com um nome ridículo. Mas fácil de dizer. Tudo começou há largos milhões de tempos atrás, num sítio abençoado pelos deuses e amaldiçoado também pelos deuses. (Naquela altura os deuses mandavam em tudo, mas - verdade seja dita - eram muito indecisos). Um dia, cansados de tantas indecisões, os deuses tomaram - finalmente! - uma medida. Acabar com a fome? Acabar com a guerra? Fazer do Benfica campeão? Nada disso. A decisão única e que alteraria o rumo da História mundial foi a de criar uma dinastia. Isso mesmo, uma dinastia. Meteram mãos à obra e, durante mais de muitos milhões de tempos, entreteram-se na sua construção. Depois de todo este trabalho, encostaram-se nas nuvens e deixaram-se adormecer. Até hoje. Como o mundo não parava, os humanos olharam para aquela dinastia e decidiram dar-lhe um nome. "Ora bem, que nome vamos dar a esta dinastia que perdurará para todo o sempre?", perguntou o director da dinastia (um director eleito para uma dinastia sem nome). "E que tal dinastia Ming? É um nome curto, fica no ouvido e, daqui por uns anos, até dá para fazer um franchising", respondeu o criativo. O director pensou e respondeu com um assombroso "Não!", "Esse nome é horrível, pequenino e não tem estilo nenhum". O criativo, que já estava chateado que chegue por ter sido contratado para uma dinastia que não tinha nome, levantou-se da cadeira, deu um murro na mesa e outro no director. O director começou a chorar, chamou pela mãe, ela não veio, e atirou-se da janela. Felizmente estava no décimo oitavo andar - quer dizer, felizmente para o criativo, que deixou de ter opositores. Mesmo assim, ainda teve de pagar o reparo da janela e o tampo da mesa, o que não impediu o nascimento da dinastia Ming. O criativo casou com a mãe do ex-director - que tinha chegado atrasada - e viveram felizes para sempre. Pelo menos enquanto os deuses estiverem a dormir.
CASA DA MINHA AVÓ
Tem quatro paredes, um telhado e mil recordações. Lá fora, um caminho de terra segue para a mata que toca com as pontas do verde nos muros da casa. De um lado, um terreno de cultivo com árvores de fruto e legumes por nascer. Do outro lado, um monte de areia que sobe pelo muro do galinheiro. Um portão vermelho de ferro, um canteiro de flores e vinte e quatro janelinhas ao longo da parede de entrada. Cá dentro, duas bicicletas encostam-se à parede da Casa dos Sacos - um parque de diversões de velharias: balanças, caixotes, baldes, cadeiras, mesas, vasos, candeeiros e sacos, muitos sacos. O pátio de pedra desce ligeiramente em direcção ao poço de água - sempre esteve tapado, afinal, de onde poderia eu roubar ameixas daquela árvore? Ao lado do poço, uma porta com uma carpintaria lá dentro e ainda uma garrafeira dezassete degraus abaixo. O chão está frio - sempre esteve frio - e a corda que pendura a roupa ainda é a mesma. A roupa é que não. A minha avó agora apenas existe nas peças de dominó escondidas no armário - na terceira prateleira do lado esquerdo, ao fundo, debaixo dos casacos e atrás das camisolas de lã -, nos blocos de papel debaixo do telefone, nas bolachas Maria com manteiga, na ponta do sofá junto à lareira, nas fotografias penduradas ao lado da porta do quarto de hóspedes. E, claro, na máquina de costura junto à televisão. Ao fundo do corredor, a casa de banho. Pequenina. A mesma madeira do chão leva a um quarto, à cozinha e a uma sala utilizada apenas em dias de festa. Tudo continua na mesma. As coisas não mudaram de sítio. Nem as recordações. Tem um telhado e quatro paredes. É a casa da minha avó.