terça-feira, 17 de novembro de 2009

Anatomia de uma Cena: Bukowski

ANATOMIA DE UMA CENA: ENTRAR TARDE E SAIR CEDO

Charles Bukowski, Ham on Rye, p. 142:

“No dia seguinte tive sorte. Chamaram o meu nome. Era um médico diferente. Tirei a roupa. Ele apontou uma luz branca e quente na minha direcção e observou-me. Eu estava sentado na berma da mesa de exames.
-Hmmm, hmmmm, disse ele, uh huh…
Deixei-me estar sentado.
-Há quanto tempo é que tem isto?
-Há uns anos. Cada vez está pior.
-Ah hah.
Ele continuou a observar-me.
-Agora deite-se ali de estômago para baixo. Eu volto já.
Alguns momentos depois a sala estava cheia de gente. Eram todos médicos. Pelo menos vestiam-se e falavam como médicos. De onde teriam vindo? Eu julgava que quase não existiam médicos no hospital público de Los Angeles.
-Acne vulgaris. O pior caso que alguma vez vi em todos os meus anos de profissão!
-Fantástico!
-Incrível!
-Olhem o rosto!
-O pescoço!
-Acabei de examinar uma rapariga com acne vulgaris. Tinha as costas cobertas. Chorou. Perguntou-me: “Como é que alguma vez vou ter um homem? As minhas costas estão marcadas para sempre. Quero morrer!” E agora olhem para este rapaz! Se ela o pudesse ver, via logo que não tinha nada de que se queixar!
Seu idiota de merda, pensei, não percebes que eu consigo ouvir o que tu dizes? Como é que se chega a ser médico? Será que aceitam qualquer pessoa?
-Ele está a dormir?
-Porquê?
-Parece muito calmo.
-Não, acho que não está a dormir. Estás a dormir, rapaz?
-Sim.
Eles continuaram a fazer incidir a luz quente e branca em várias partes do meu corpo.
-Volta-te.
Voltei-me.
-Olhem, ele tem uma lesão no interior da bochecha!
-Bom, como é que vamos tratá-la?
-A agulha eléctrica, parece-me…
-Sim, claro, a agulha eléctrica.
-Sim, a agulha.
E assim foi decidido.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Pontos de Vista

Os parágrafos abaixo servem como exemplo de vários pontos de vista apresentados para a mesma história: interior, exterior, o ponto de vista do morto, e um estilo distanciado e analítico. Todos eles boas maneiras de abordar esta história. Pensem nos pontos de vista, de que falaremos em breve.

Assunção Duarte - parágrafo inicial

Conhecia-o desde sempre. Ele tinha estado em todos os funerais a que eu assistira na aldeia. Era um lugar onde se morria pouco e, quando acontecia, ele tornava o acontecido num verdadeiro evento. O seu lugar era sempre do lado direito da cova que abrira no dia anterior. Em todos a ocasiões vestia um fato escuro impecavelmente limpo e, com um ar sério e solene, ficava a aguardar o sinal do padre para baixar o caixão. Naquele dia eu senti que o estava a ver pela primeira vez. Sereno o seu rosto transmitia uma paz surpreendentemente pura. Capaz de me fazer invejar o que quer que fosse que lhe passava pelo pensamento. A voz grave do padre percorria sem obstáculos o ar límpido da manhã, mas não o suficiente para abafar o sussurro que percorria o povo que viera assistir ao enterro: O coveiro está a enterrar o próprio filho, diziam. E nem uma lágrima ele deita!

André Pereira - parágrafo inicial

“13 de Junho de 2009, Lisboa. Duas e meia da manhã. Simão Gomes Pereira, 62 anos, dá entrada no Hospital com sintomas de absolutamente nada. Boa aparência, simpático, saudável. Discurso coerente e articulado, consciência do espaço e do tempo. Tudo indica que seja mentalmente equilibrado. Nenhum distúrbio psíquico aparente. Só um pequeno pormenor, o seu filho morreu ontem.”

Sandra Cabral - parágrafo inicial

O meu pai foi o mais corajoso de todos, até ao final dos meus dias.

Coveiro de profissão fez questão de me preparar a sepultura.

Fundas, rectas, perfeitas como a minha, cavou-as toda a vida. Repetiu-as com brio, para amigos, alguns parentes, para a minha mãe, há muitos anos.
Nos caminhos do cemitério, sempre percorridos a passo de passeio, sabia cada esquina no seu lugar.
Perdeu o tino, a compostura, os modos discretos quando, finalmente, a doença me sugou a vida.
Daria a sua pela minha, num segundo, sem receios. O homem bom ajustaria contas com o diabo, no momento certo do destino para lhe pagar o pacto.

Nas sombras de silêncio, por entre campas, jazigos, coroas de flores e abraços, revolveram-se-lhe o estômago e o peito. A visão turva, o peito comovido como nunca, como na tarde em que morri.

Cristina Carvalho - parágrafo inicial

Enquanto estive fechado à força no asilo de alienados, a minha pá ficou catalogada como prova número um, esquecida numa prateleira alta do armazém forense e quando, ao fim de quinze anos, oito meses e dez dia de internamento, saí curado, foi o cabo dos trabalhos reavê-la. Durante a minha vida de coveiro, a minha pá e eu, inumámos três mil quinhentos e cinquenta e seis defuntos, entre os quais, pela ordem natural das coisas, pai e mãe e também um filho, o mais velho, morto em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas, causa provável de tudo o que veio a acontecer. Além disso, exumámos trinta e quatro cadáveres e efectuámos vinte e sete trasladações. Só não apreciamos, a minha pá e eu, a moda das cremações, tira-nos trabalho e o trabalho é alegria de viver.

Acusaram-me, entre outras coisas que esqueci, de ter enterrado o meu filho com alegria. Não de ânimo leve, não, reparem bem, com alegria. Durante anos, nas horas vagas, vasculhei, com esforço e a ajuda do guarda do hospício Leonel, as letras miudinhas e enviesesadas do Código Penal e nunca encontrei a tipificação de tal crime. De qualquer modo, parece que não é decente enterrar alegremente um filho. Não sei, é o que dizem. Primeiro disse-o a mãe, que eu era um monstro, um alienado (e isso, pelo menos, corroboraram médicos psiquiatras, advogados, juizes e até Leonel, o guarda do hospício que, nesse tempo, ainda não era meu amigo), disseram-no os irmãos, que também me alegraria enterrá-los, o que não é totalmente falso pois alegra-me enterrar qualquer um, e disseram-no os olhos azedos nas caras do padre, das carpideiras e dos gatos pingados. Eu limitei-me a cumprir o meu dever, colocar-lhe o óbolo na boca e entregá-lo a Caronte, com a mesma felicidade com que entreguei todos os outros.

Coisas a Lembrar

Robert McKee:

"Antes mesmo dos mitos, já as danças ou as pinturas nas cavernas contavam histórias. Jean-Paul Sartre disse um dia que todas as grandes histórias já tinham sido escritas. Mas eu acho que temos que reescrever as mesmas histórias no nosso tempo, com os meios e as circunstâncias em que vivemos. Os meus filhos nunca leram Ivanhoe, mas viram a Guerra das Estrelas, que lida com os mesmos valores, os mesmos arquétipos. Cada geração recria os mitos e reescreve as suas histórias, mas também cria novas histórias, novos mitos.

"Porque essas são as questões fundamentais da experiência humana, da sua vida interior. São histórias antigas, têm uma sabedoria universal."

"Dou-lhe um exemplo de uma boa protagonista: Blanche Dubois, do filme Um Eléctrico chamado Desejo, de Elia Kazan. Ela é alguém cuja vida perdeu o rumo e que faz uma caminhada até voltar a encontrá-lo. É alguém que luta para encontrar o equilíbrio."

Que qualidades é preciso ter para se ser um bom contador de histórias?

"Os atributos são sobretudo persistência, trabalho, abertura ao fracasso. A inspiração não chega.É preciso sabedoria."