quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Consciência do Herói

Foi isto de que falámos na última aula (leiam a parte a respeito de Blanche Dubois e da falha do protagonista):

http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1418414&seccao=Cinema

Mais pesquisa

Aqui fica um site curioso e útil com ferramentas de pesquisa.

http://www.writerswrite.com/reference/

E uma lista de livros onde, como dizia o João, a pesquisa é a especiaria e não o prato inteiro.

Sábado, Ian McEwan (neuro cirurgião)
Libra, Don Delillo (assassinato de JFK)
Choke, Chuck Palahniuk (viciados em sexo)
Soldados de Salamina, Javier Cercas (guerra civil espanhola)

E aqui, livros em que a memória serve de base:

The things they carried, Tim O'Brien (guerra do vietnam)
The heart of the matter, Graham Greene (espionagem)
Os cus de judas, António Lobo Antunes (guerra colonial)
Império do sol, J.G Ballard (campo de concentração japonês)

Junot Diaz

Uma entrevista audio do autor aqui. Onde se encontra também um excerto do livro.

Deixo ainda o texto que lemos na aula, sobre como transformar a memória numa narrativa.

JUNOT DIAZ

Perguntem aos velhos e eles dirão: Trujillo era um ditador, mas era um ditador dominicano, que é outra maneira de dizer que era o Bellaco número um do país. Acreditava que todo o toto na RD era, literalmente, seu. É um facto bem documentado que na RD de Trujillo, caso fosses de uma determinada classe e pusesses a tua filha gira perto do El Jefe, em menos de uma semana ela estaria mamando no seu ripio, como uma velha profissional, e não havia nada que pudesses fazer acerca do assunto. Era parte do preço de se viver em Santo Domingo, e um dos segredos mais bem guardados da ilha.

(...)

Já o vi aqui com frequência, Doctor, mas ultimamente sem a sua mulher. Divorciou-se?

Continuo casado, sua Excelência, com Socorro Hernández Batista.

É bom saber isso, disse El Jefe, temi que se tivesse tornando num maricón. Então, virou-se para os seus lambesacos e riu-se. Oh Jefe, disseram eles, o senhor é de mais.

Seria nesta altura que outro mano talvez dissesse, numa demonstração de cojones, alguma coisa para defender a sua honra. Abelard não era esse mano. Não disse nada.

Mas claro, disse El Jefe, limpando uma lágrima de riso de um dos olhos, você não é um maricón, porque ouvi dizer que tem duas filhas, Dr. Cabral, uma que es muy bella y elegante, não?

Abelard tinha ensaiado uma dúzia de respostas para esta pergunta, mas a sua reacção foi um reflexo puro, vinda do nada: Sim, Jefe, tenho duas filhas. Mas para lhe dizer a verdade, só podem ser consideradas bonitas para quem gosta de mulheres com bigode.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Entrevista de Paul Auster

Entrevista de Paul Auster (vídeo) na Granta Magazine

"A clareza (nas palavras) é a coisa mais inquetante que existe. Permite ao leitor, em certo sentido - se o soubermos fazer - esquecer que o meio de expressão é a linguagem; estamos, de certa maneira, ligados àquilo que as palavras nos estão a dizer, sem termos de pensar nelas."

Parágrafos Iniciais, Aula 1

Exemplo 1:

TRILOGIA DE NOVA IORQUE, Paul Auster

“Foi com um número errado que tudo começou, o telefone a tocar três vezes no silêncio da noite, e a voz do outro lado a perguntar por alguém que ele não era. Muito mais tarde, quando foi capaz de pensar sobre as coisas que lhe aconteceram, chegaria à conclusão de que nada era real excepto o acaso. Mas isso foi muito mais tarde. No princípio, existiu apenas o facto e as suas consequências.”

Exemplo 2:

MOBY DICK, Melville

“Tratem-me por Ismael. Há alguns anos – não interessa quantos exactamente – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e sem qualquer interesse especial que me prendesse à terra firme, senti vontade de embarcar e de ver a parte aquática do mundo. É uma maneira que eu tenho de afastar a melancolia e de normalizar a circulação. Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar involuntariamente diante de agências funerárias e a seguir na esteira dos funerais que se me deparam; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de apelar aos meus bons princípios para não começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar o mais depressa possível.”

Exemplo 3:

ANÓNIMO:

“Alguém arrebatou a venda à mulher idosa e ela e o prestidigitador foram escorraçados, e quando a companhia se foi deitar e o fogo baixo bramia como uma coisa viva, esses quatro ainda se agacharam à luz da fogueira, entre os seus estranhos haveres, e observaram o modo como as chamas em farrapos se escapuliam do vento como que sugadas por um redemoinho algures no vácuo, por um vórtice nesse ermo perante o qual jazem anulados tanto o trânsito do homem como os seus juízos”

Exemplo 4:

JAVIER CERCAS, A Velocidade da Luz

“Agora levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, clandestina e invisível embora mais verdadeiro do que se fosse real, mas eu ainda era eu quando conheci Rodney Falk. Foi há muito tempo e foi em Urbana, uma cidade do Middle West norte-americano onde passei dois anos nos finais da década de oitenta. A verdade é que cada vez que me interrogo por que terei ido parar precisamente lá, respondo a mim próprio que fui parar precisamente lá como poderia ter ido parar a qualquer outro sítio, Contarei por que razão, em vez de parar a qualquer outro sítio, fui parar precisamente lá.”

Exemplo 5:

Anónimo

“O físico Leonardo Vetra sentiu o cheiro de carne queimada, e soube que era a sua. Ergueu o olhar aterrorizado para a escura figura que se debruçava para ele.
-O que quer?
-La chiave – respondeu a voz rouca. – A password.
-Mas…eu não….
O intruso voltou a carregar, cravando o objecto incandescente ainda com mais força no peito de Vetra. Ouviu-se um silvo de carne a grelhar.”

Ideia de Branca Lee, Aula 1

Engenheiro extremamente racional - destes que come sopa de letrinhas em ordem alfabética - acorda de manhã e vê pela janela que o Cristo Redentor sumiu. Encontra uma cidade à beira do caos, cada cidadão um profeta a dizer os motivos de tal sumiço e as conseqüências deste para a cidade e o mundo. Participa do grupo de técnicos que pesquisam o evento - e que nada descobrem. Conflito razão e fé. Aos poucos, se convence, junto com a cidade, que é necessário rezar e pedir a sua volta.

Enredo, Aula 1

Uma vez mais, o esquema de PLOT / ENREDO distribuído na aula. Não esquecer que a SITUAÇÃO (conflito) conduz as personagens à ACÇÃO e que esta tenta resolver esse conflito, revelando o CARÁCTER e a MOTIVAÇÃO das personagens. Finalmente, dá-se a REVELAÇÃO.


PLOTLINE / ENREDO

-Faz-se a si próprio a partir da situação inicial

a) Arredores

b) Situação

c) Personagens

d) Complicações / Conflitos

e) Revelações

f) Clímax / Conclusão

ARREDORES: Vida anterior ao plot

SITUAÇÃO: Lançamento da história, colocar personagens numa situação e observá-las a libertarem-se

PERSONAGENS: Motivação e plot são idênticos às personagens. Do interior para o exterior.

COMPLICAÇÕES: Sucessivos obstáculos em direcção a uma resolução. Complicações pequenas e grandes (PLOT POINTS), que mostram alguma coisa na personagem e alteram o seu caminho (ou invertem plot)

REVELAÇÕES: Exteriores ou interiores, mostram o significado do conflito/complicação ao protagonista (e ao leitor). Se o deixarmos de lado estamos a pedir ao leitor que leia puro plot

CLÍMAX/CONCLUSÃO: Na IlÍada, conclui o plot (enterram Hector). Na ficção moderna, passa pela reversão e reconhecimento Aristotélicos: a situação do protagonista MUDOU, e o protagonista RECONHECE essa mudança e dá-se conta da consequência das suas escolhas